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O Novo Capital financeiro

Dois olhares sobre o que está a mudar neste segmento da economia. A Revolução dos «Private Equity», segundo a Bain & Co., e a emergência dos «Innovation Capitalists», considerada uma ideia brilhante 2007 pela Harvard Business Review. A opinião em directo dos especialistas envolvidos nos dois estudos.

Texto e entrevistas por Jorge Nascimento Rodrigues, editor de Gurusonline.tv, Março 2007.
Ilustrações por Paulo Buchinho.

1. A Revolução dos Fundos Privados

O montante anual em "private equity" poderá chegar perto dos 400 mil milhões de euros no final deste ano. Esta avalancha de dinheiro está a ser acompanhada por um "activismo" dos fundos na gestão das empresas participadas, segundo um estudo da Bain.

O sector dos Fundos de "Private Equity" (FPE) atravessou "uma viragem fundamental" nos últimos cinco anos, segundo um estudo da consultora Bain & Company, de Boston. Deixaram de estar sentados à espera que as novas equipas de gestão dêem conta do recado, e passaram a "meter as mãos" na condução das empresas participadas. Passaram de investidores passivos a "activistas", diz o estudo "Private Equity's road map to profits".

É mais uma mudança no perfil do capital financeiro disponível hoje em dia para as actividades económicas, desde que a moda do capital de risco (venture capital, no original) começou a ser suplantada pelo activismo destes fundos e dos "capitalistas da inovação" (a que nos referimos no segundo artigo).

Em alta mediática

Os FPE financiam operações de aquisição ou recomposição do capital de empresas sem recurso ao mercado bolsista. Desde o final da "bolha" das "dot.com" que surgiram associados a aquisições de grande envergadura de empresas em diversos sectores inclusive com marcas conhecidas internacionalmente (Hertz, Neiman-Marcus, MGM e Warner Music Group, por exemplo).

Por "activismo" entende-se o envolvimento destes investidores na definição das oportunidades, dos objectivos estratégicos e financeiros das firmas participadas. A preocupação central é que os negócios sejam mais eficazes e possam gerar fundos próprios, com vista a tornar as empresas interessantes para outros investidores, permitindo aos FPE saírem com um ganho que seja um múltiplo simpático do que investiram. O estudo da Bain revela, de facto, que o activismo dos Fundos rende, pois, quando há um envolvimento desde o primeiro ano da participação, o múltiplo do retorno do investimento, quando se sai, é 2,5 vezes superior à média.

Verdadeira ebulição

Esta viragem está a ser acompanhada por um disparo dos montantes envolvidos. Em 2005, os FPE levantaram mais fundos na Europa do que durante o pico da "bolha" tecnológica - 72 mil milhões de dólares (53 mil milhões de euros) contra 48 mil milhões (35 mil milhões de euros) em 2000. Em 2006, os valores na Europa subiram aos 90 mil milhões de dólares (67 mil milhões de euros), um aumento de 25%.

No conjunto da Europa e dos Estados Unidos, os FPE levantaram, entre 2001 e 2006, cerca de 500 mil milhões de dólares (370 mil milhões de euros) nos EUA e 285 mil milhões de dólares (210 mil milhões de euros) na Europa. Com esta ebulição, a Private Equity Intelligence Ltd, a firma inglesa que rastreia o sector, estima que até final de 2007 o montante anual nos EUA e Europa poderá passar de 300 mil milhões de dólares (220 mil milhões de euros) em 2006 para 450 a 500 mil milhões (332 a 370 mil milhões de euros). Na Europa destacam-se os fundos ingleses e dos países nórdicos.

O que este "oceano" de milhões e milhões, gerido por cerca de 1500 FPE até final do ano, implicará é "um ruído ensurdecedor de concorrência" entre os fundos para boas aplicações, no dizer da Private Equity Intelligence.

2 perguntas a Teresa Martín-Retortillo
Responsável ibérica da Prática de "Private Equity" da Bain & Co, Madrid

P: Com o "boom" dos fundos de Private Equity (FPE) e do seu activismo na gestão das empresas, não se corre o risco de se tornarem verdadeiros conglomerados?
R: Não. Os Fundos, com sucesso, resistem à tentação de se tornarem conglomerados. O seu êxito reside precisamente na obrigatoriedade de saída para que haja um retorno aos investidores do fundo, implicando, por isso, um horizonte limitado - e conhecido - de permanência na empresa.

P: Quer destacar alguns casos em Portugal dessa nova estratégia dos FEP?
R: Citaria dois. A venda à Quercus Equity espanhola da Alfasom portuguesa (aluguer de audiovisual) por parte da Explorer Investments (um fundo português), que gerou um retorno 4,3 vezes superior ao investimento em apenas 20 meses. E a venda da Saprogal (comida para animais, grupo galego com fábricas e aquisições em Portugal, cujo CEO é português) à Mercapital espanhola em 2005, depois de uma participação pela Carlyle Europe Partners II - foi o maior retorno deste fundo a nível europeu.

2. Chegaram os capitalistas da inovação

É um novo protagonista no mundo do financiamento das novas ideias. Lidam com propriedade intelectual. Diferente das firmas de capital de risco e dos "business angels". O objectivo não é engordar "start-ups", mas vender ou licenciar inovações prontas para industrializar ou comercializar por outras empresas.

Se você tem uma ideia inovadora e não sabe como fazê-la chegar ao mercado, ou sente que não tem qualquer vocação para ser empresário ou empreendedor, tem um novo parceiro a quem pode recorrer. Não se trata de "business angels", firmas de capital de risco ou incubadoras, entidades de que se tem ouvido falar nos últimos quinze anos.

O novo protagonista dá pelo nome de baptismo de "capitalistas da inovação". São firmas especializadas em investir de armas e bagagens na sua ideia logo à nascença, porque têm conhecimento na área e capacidade de melhorar a invenção original - transformando-a em propriedade intelectual (PI) apetecível.

Actores da próxima década

Para os académicos norte-americanos Satish Nambisan e Mohambir Sawhney, que "descobriram" este novo actor económico, as firmas de "capitalistas da inovação" irão "desempenhar um papel na próxima década tão importante como os capitalistas de risco nos anos 1990".

Estas firmas de investimento na propriedade intelectual envolvem-se no próprio processo inicial de desenvolvimento, controlando-o, fazendo aquilo que muitos criadores de ideias não sabem fazer: validar e transformar uma invenção genial num produto ou serviço comercializável. O objectivo final, em cada operação, é ter uma ideia de mercado que possa ser vendida como PI às empresas caçadoras de inovações alheias para colocar nos seus portfolios de produção ou comercialização.

"A estratégia de saída destes capitalistas inovadores é uma firma cliente, que compra a inovação ou a licencia. Não passam a bola nem para incubadoras ou outros financiadores. Pretendem obter o retorno do investimento feito na PI", afirma-nos Satish Nambisan, que é professor de estratégia e gestão da inovação na Lally School of Management and Technology, em Troy, em Nova Iorque. O resultado financeiro é partilhado entre os inventores e os capitalistas da inovação. Os analistas dizem que o mercado de licenciamento da PI está em ebulição e que já chegou aos 150 mil milhões por ano nos Estados Unidos.

Venda mais barata

Deste modo, este novo tipo de intermediários vive de andar literalmente à caça de inovadores, em particular nas comunidades temáticas ou profissionais. Mas não para criar e engordar "start-ups" à espera de cotação em bolsa ou aquisição futura. "Os capitalistas da inovação focalizam-se na ideia, trabalham-na. Não criam qualquer tipo de estrutura organizacional em torno dela. Por isso podem vender muito mais barato uma inovação, do que uma firma de capital de risco ao vender uma "start-up" em que investiu", sublinha o nosso interlocutor.

Estas firmas são empresas de conhecimento intensivo, com "expertise" nas áreas em que procuram inovações (ver exemplos). Não são entidades financiadoras de "start-ups" ou "brokers" à procura de uma renda de intermediação. Metem o dinheiro e os seus recursos em saber no desenvolvimento da ideia. Criam valor acrescentado à oferta inicial do inovador. São uma "ponte" que co-inova, e não apenas um canal de passagem.

Os dois académicos vão lançar até final do ano um livro - intitulado 'Network-Centric Innovation', editado pela Wharton School Publishing - que aborda, entre outros, este tema dos novos capitalistas inovadores.

DOIS EXEMPLOS

  •  EvergreenIP. Especializada na área do consumo. Define-se como "capitalistas do produto". Procura criadores de ideias na área do consumo para depois as transformar em inovações vendáveis aos grandes grupos de produtos de consumo e distribuição. Estes grupos (casos da P&G, Staples, Dial, etc.) optaram há muito por fazer o "outsourcing" de inovações. A EvergreenIP considera-se a "ponte" entre os criadores de ideias e os grupos da distribuição. Localizada precisamente na cidade de Evergreen, no sopé das Montanhas Rochosas, no Colorado, EUA.


  •  IgniteIP. Aposta nas ideias novas, logo à nascença, na área das tecnologias. Tem uma metodologia para rastrear se uma ideia inovadora vale a pena ou não. O objectivo é trabalhá-la e depois licenciá-la. Envolve-se em operações de propriedade intelectual tipicamente entre 500 mil e 2 milhões de dólares. Está localizada em Seattle, no estado de Washington (onde nasceu a Microsoft), e em Mountain View, no Silicon Valley, na Califórnia, nos EUA.
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