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NA ESQUINA DOS MILÉNIOS (5)

Irrelevância da Política?

Por Mário Murteira (*)

Como aquecer porquinhos no Inverno alentejano
Na ocasião em que recebeu o Prémio Nobel da Literatura, na habitual conferência proferida pelo laureado, José Saramago conta que os seus avós maternos, Jerónimo Melrinho e Josefa Caixinha, ambos analfabetos, quando o frio mais apertava, iam à noite buscar na pocilga os porcos mais débeis e levavam-nos para a sua cama, para não morrerem de frio. Explica Saramago, num texto admirável, que não se tratava de prova de bom coração, mas sim de estrita necessidade de sobrevivência, pois era duma pequena criação de bácoros que viviam aqueles seus antepassados. E diz ainda Saramago, referindo-se ao seu avô, que "o homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever". E relembra histórias que ouvira, deslumbrado, do seu avô, sempre lhe perguntando, quando se calava: "e depois?....". Mas podemos nós acrescentar que talvez a sabedoria humana desse grande escritor português tenha algo a ver com esse seu antepassado.
Quero apenas dizer com esta introdução que, sim, os homens mais sábios não são necessariamente os mais cultos. Mas estes, em todo o caso, podem revelar-nos coisas que simplesmente não estão ao alcance do entendimento dum analfabeto. Pois é dalguns desses que me ocupo hoje aqui.
Há grandes autores que são também grandes testemunhas do seu tempo. Pensemos, por exemplo, na sequência Marx, Keynes e Schumpeter, Peter Drucker e Eric Hobsbawm., num desfile que cobre aproximadamente o período que vai dos meados do século XIX até hoje. Todos eles nos deram, ou dão ainda, imagens penetrantes do seu tempo, dos seus primórdios e também (com maior ou menor sucesso ou ambição) dos tempos a chegar. Naquela lista, os dois últimos autores felizmente estão ainda vivos, e são longevos, pois nasceram nos primeiros anos do século passado
Na verdade. os três primeiros da série são bem conhecidos pelas suas ideias e ideologias - o primeiro, como é sabido, procurando apressar o colapso do capitalismo, os dois seguintes, pelo contrário, procurando retardá-lo; quanto a Drucker é um nome familiar aos estudiosos da gestão, mas o historiador britânico Eric Hobsbawm aparece aparentemente deslocado nesta lista. Mostrarei que não é assim
Drucker e Hobsbawm têm, com efeito, algo de comum: viveram e interpretaram profundamente episódios dramáticos do século XX E também passaram parte da sua juventude na Áustria, experimentado de perto a conjuntura ideológica, social e política que antecedeu a subida ao poder do Nazismo na Alemanha. E revelam muito de profundamente distinto, mas também de comum, nessa experiência e nas suas visões do tempo que viveram: é essa conjugação paradoxal que motiva esta análise.
Com efeito, é fascinante comparar dois livros destes autores, crónicas de tempos por eles vividos no século passado. O livro de Drucker chama-se, significativamente "Memories of a by-stander", enquanto o de Hobsbawm se intitula, na edição brasileira, em tradução literal do título original, "Tempos Interessantes - Uma vida no século XX"
Conforme relata este autor, historiador de reputação internacional há muito consagrada, foi membro do partido comunista britânico durante cerca de 50 anos.

Como, com boas razões, entrar e sair do partido comunista
Procurando explicar porque não saiu mais cedo do partido, por exemplo, a quando da morte de Estaline em 1953, e da "revelação" da verdadeira natureza do estado soviético, Hobsbawm não tem pejo em afirmar que o orgulho foi uma das razões da persistência pois que, rompendo com o partido comunista, teria sido fácil o acesso a uma brilhante carreira numa universidade americana…
Mas o que me interessa confrontar é as duas visões da política e do capitalismo que exibem os autores. Para este efeito, é reveladora a explicação de Hobsbawm das razões que o levaram a filiar-se no partido comunista
No essencial, trata-se dum jovem que vive a convicção profunda de que é preciso transformar radicalmente um mundo cruel e desumano e que é possível fazê-lo, não só seguindo a ideologia do marxismo-leninismo, mas também aderindo a uma organização rigorosamente organizada e dirigida para a prática dessa ideologia. Organização que não pretende ser um partido de massas (como um partido socialista ou trabalhista, por exemplo) mas antes um pequeno partido composto duma elite de militantes prontos para tudo sacrificar em prol do projecto revolucionário que lhes dá, literalmente, razão de ser.
Ou seja, nesta concepção originária, ou genética, do partido, tudo se baseia em duas hipóteses fundamentais: é possível uma transformação radical e voluntarista do mundo capitalista em que vivemos, e os partidos comunistas são os meios necessários e suficientes para tanto. Embora, claro, o caminho possa ser longo, tortuoso e muito duro para os que pretendam abri-lo
Total contraste, pois, da perspectiva do europeu Hobsbawm com a visão do norte-americano Drucker, visão optimista, prática, embora inconformista; enquanto a outra, mais refinada e angustiada, era própria de alguém que, quando jovem, pensou que a política radical e "cientificamente" voluntarista poderia salvar o mundo. Um mundo, pensemos nos anos 1930, que vivia a trágica experiência duma chamada "segunda guerra dos 30 anos", que durou de 1914 a 1945.
Drucker escreveu que "a política é irrelevante", querendo dizer com isso que o discurso e a prática da política formal não fazem a dinâmica social, mas ao contrário, é essa dinâmica, esse movimento histórico que forma as vagas em que os políticos profissionais, com mais ou menos sucesso e elegância, praticam surf. Aliás, já Schumpeter escrevia no seu famoso "Capitalismo, Socialismo e Democracia", datado de 1942, que o político em democracia "está tão preocupado em não cair do cavalo do poder que não tempo de ver para onde corre a montada"
Hobsbawm chamou ao século XX, a "Idade das revoluções", e é curioso que um famoso sociólogo americano crítico da sociedade americana, que aqui várias vezes referi, Immanuel Wallerstein, chame ao nosso tempo "Idade das transições". Já não se trata pois, ao que parece, de movimento histórico intencional, voluntarista, mas antes de mudança que decorre espontaneamente (dir-se-ia) do capitalismo como processo histórico…

E como "salvar o mundo" pela Gestão?
Daqui resulta esta interrogação: a política nas sociedades ditas democráticas é hoje ilusória, irrelevante ou pior ainda, apenas representação mais ou menos hipócrita de poderosos interesses disfarçados? Compreende-se, sem margem para dúvidas, a actualidade da questão na presente conjuntura política portuguesa, agitada à superfície, mas lenta e ambígua no seu fluir mais profundo
E repare-se que a convicção da irrelevância "desta" política é afinal comum, em certo sentido, aos dois autores que citamos, embora a partir de diferentes pressupostos. Desemboca, ao que parece, numa comum confissão de impotência perante o implacável e imprevisível curso da História. Mas Drucker confia que certos homens e certas organizações, animados por certas ideias, poderão melhorar o mundo.
Que fazer, então? poderemos perguntar como fez Lenine no seu tempo. Hoje, com menor entusiasmo, algum cinismo e maior sabedoria, talvez se possa responder: frequentando bons cursos de Gestão, de preferência nos EUA...
Seria fácil demais, certamente. Então, digamos, em vez disso: melhoramos o mundo, criando e gerindo organizações capazes de produzir (e aplicar) melhor conhecimento ao serviço do desenvolvimento humano. E isto, não tanto no espaço da política formal, mas antes da chamada sociedade civil.
Mas, no fim de contas, quando o jovem Hobsbawm convictamente se filiava no partido comunista, em 1932, não era isso mesmo que pensava fazer? Não julgava o seu partido detentor, tal como uma outra igreja, "da verdade, do caminho, e da vida"?
Na realidade, exprimia à sua maneira a vivência duma determinada conjuntura ideológica, social e política. Que já passou, como passam todas as conjunturas que vivemos, por mais notáveis que sejam os seus observadores, ou mesmo actores, como os cinco que evocámos nesta crónica.
Enquanto a sabedoria do avô de Saramago, essa, talvez resista melhor ao correr do tempo…


(*) Professor catedrático jubilado do ISCTE)

 
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