English inglês Castellano castelhano
 
Home >>Página Anterior >> Artigo

Hervé Laroche critica o folclore na vida da empresa

Uma cultura forte é discreta

Uma pedrada no charco - uma opinião a contracorrente que vai aborrecer muitos consultores que vivem deste negócio da "cultura empresarial" ou das actividades de "exterior" e que vai deixar mal dispostos os chefes de empresa que gostam deste folclore.

Jorge Nascimento Rodrigues, editor de Gurusonline.tv, Fevereiro de 2005

Hervé Laroche pode ser contactado pelo e-mail
Artigo de Laroche na revista Sloan Management Review "The Power of Moderation" em inglês
10 riscos nos excessos do vestir da camisola

A recomendação de Hervé Laroche:
«As empresas têm de descobrir formas de organizar a variedade, mais do que impor o alinhamento cego pelos valores, preferências ou motivações da época. A tal moderação na gestão, de que falo, é precisamente focalizar na procura de um equilíbrio entre diferentes atitudes e comportamentos»

Nos últimos quinze anos a literatura popular de Management e o discurso dos consultores não pararam de nos gritar ao ouvido que a cultura de empresa tem de ter manifestações enérgicas para inspirarem um "comprometimento forte", uma "motivação profunda", um "consenso muito amplo" e uma "lealdade inquestionável". A que se somou, na prática, alguma inclinação para o culto de personalidade de CEO mais mediáticos e todo um folclore de actividades de empresa sob o signo de "vestir a camisola", de forçar o relacionamento e o espírito colectivo entre colegas e de promover os "stakanovistas" dos tempos actuais, sejam os jovens atrevidos, os seniores mais astutos ou os espertalhões e "puxa-sacos" em geral, como dizem os brasileiros.

À boca pequena, nos corredores, nas varandas, na sala de fumo, na cafetaria ou junto à máquina de água, a maioria dos empregados há muito que manifesta estar farta desses excessos. As paredes ouvem-nos, mas a gestão, em regra, é surda.

Finalmente, na literatura "séria" de gestão, aparece alguém que grita que "o rei vai nu". "As culturas de empresa verdadeiramente fortes são culturas silenciosas, ou, pelo menos, não necessitam de mostrar a sua força com grande algazarra", afirmou-nos Hervé Laroche, um professor de gestão estratégica na Escola Europeia de Management (European School of Management) em Paris. Hervé, um doutorado em ciências da gestão, acrescenta que "as culturas fortes são produto da história e não fabricadas à pressão", e como tal, ao contrário do unanimismo e do dogmatismo, "encerram ambiguidades e complexidades que as tornam, até certo ponto, mais dinâmicas e capazes de usar os seus recursos face aos desafios de hoje". E deplora que a gestão - quer em alguma doutrina, quer na prática de muitos CEO e gestores iluminados - "tenha estado muito apaixonada pelos extremos".

Humor a contracorrente

Hervé Laroche criticou com desassombro os excessos da cultura empresarial e elogiou o que chama de "aderência moderada" num artigo escrito para a revista norte-americana Sloan Management Review (edição do Inverno 2004, volume 46, número 1) intitulado precisamente "O poder da moderação", onde fala exaustivamente de 10 riscos derivados de uma cultura de excessos (ver caixa).

No artigo revela o antídoto para os exageros: "Aderência moderada baseada na ideia que o empenhamento deve ser construído em torno de contratos psicológicos credíveis, assentes em princípios e exigências realistas. Eu acho que muitos gestores sensatos estão perfeitamente conscientes disto, mas como não estão apoiados por nenhuma filosofia articulada de gestão, acabam por continuar na retórica", sublinha-nos Laroche.

A "aderência moderada" é aconselhada quer em contraposição à "supercola" (a tal que cola cientistas ao tecto) que aprisiona empregados em rituais por vezes a roçar o ridículo, quer à ausência de "adesivo" cultural interno.

Não é, por acaso, que o artigo polémico foi publicado na secção "Contraria" daquela revista de Boston. Trata-se de uma pedrada no charco - de uma opinião a contracorrente que vai aborrecer muitos consultores que vivem deste negócio da "cultura empresarial" ou das actividades de "exterior" e que vai deixar mal dispostos os chefes de empresa que gostam deste folclore.

«O cinismo, como sabemos, é altamente adaptativo. As culturas empresariais criadas em proveta generalizam o cinismo e a falsidade, e conseguem exibir boas capacidades de adaptação à primeira vista. A questão é outra: Quais são os custos no longo prazo?»

Laroche tem uma particular inclinação por um humor fino. Além de ensinar e escrever sobre gestão e ser presidente da Associação Internacional do Management Estratégico, dedica o gosto pela graça a outros temas que surpreenderão o leitor - escreveu em 2001 um "Dicionário de clichés literários" (primeiro conselho: "Escrevam mal, mas façam-no bem") e em 2003 um curioso "Eu serei" ("Je Serais"), em que brinca, como uma criança, com identidades desejadas (por exemplo: "Se eu fosse Harry Potter...").

O seu baptismo literário em França deu-se com "O Koala na banheira" ("Le Koala dans la baignoire") em 1999. A sua mais recente obra, no campo da gestão, saiu em Março de 2005 e foi escrita a quatro mãos com Sandra Bellier - "Eu, Gestor" ("Moi. Manager").

Diversidade é o truque

Quando a tal cultura genuína e silenciosa (ou pelo menos discreta) não impera, as organizações são dominadas pelo cinismo, particularmente dos escalões intermédios, e por um falso generalizado "amém". Os efeitos, por vezes, não se sentem logo: "O cinismo, como sabemos, é altamente adaptativo. As culturas empresariais criadas em proveta generalizam o cinismo e a falsidade, e conseguem exibir boas capacidades de adaptação à primeira vista. A questão é outra: Quais são os custos no longo prazo?".

A gravidade destas culturas de excesso nota-se em particular nos períodos de turbulência - falta-lhes "biodiversidade" (para usar uma palavra agora em moda nos políticos) nas cabeças dos membros da organização. "As empresas têm de descobrir formas de organizar a variedade, mais do que impor o alinhamento cego pelos valores, preferências ou motivações da época. A tal moderação na gestão, de que falo, é precisamente focalizar na procura de um equilíbrio entre diferentes atitudes e comportamentos", conclui Hervé Laroche.

10 RISCOS DOS EXCESSOS NO "VESTIR DA CAMISOLA"
  • Os hiper-motivados tendem a interpretar, mesmo sem disso terem consciência, os propósitos organizacionais segundo as suas convicções dogmáticas
  • Em situações de recuo ou de falhanço das estratégias da empresa, o ressentimento deste segmento hiper-envolvido pode ser grande e causar estragos
  • Tendem a julgar que devem dar opinião sobre tudo, a actuar como se fossem os "donos"
  • Corre entre eles a ideia de que, pelo amor à camisola, os fins justificam o uso de qualquer meio
  • Manifestam excessiva autoconfiança face às dificuldades, tendem a ser cegos face aos sinais de alarme, o que atrasa a correcção de rota, funcionando como força de bloqueio
  • Fidelizam-se em torno de um dado CEO ou de um grupo restrito de hiper-comprometidos, gerando a criação de "cliques" dentro da organização
  • O culto de personalidade dos CEO torna-se numa questão muito problemática, quando o CEO sai pelo seu pé ou é afastado
  • O excesso na convicção da "superioridade" da cultura da empresa acarreta a recusa em aprender com outros
  • O cinismo torna-se o modo de estar, em virtude de quase ninguém, no fundo, acreditar no folclore empresarial, incluindo as bonitas declarações de missão, visão, responsabilidade social, governança empresarial, etc., quando a prática estiver longe das palavras
  • Num clima de cinismo, os mais atacados pelo vírus do pragmatismo de "albardar o burro à vontade do dono" são os gestores de linha, a camada intermédia que serve de "cola" entre a base e o topo
  •  
    Outros Artigos
    Peter Drucker - Uma divida pessoal
    Entrevista Exclusiva a Peter Drucker
    O filme do Management desde The Concept of Corporation em 1946
    Quando o Management largou o bibe
    A Herança de Alfred Chandler
    A internacionalização que nasceu nos sítios errados
    Voando sobre um gigante em crise: Radiografia do Japão na entrada do século XXI
    «A expressão 'management' é redutora»
    Executivos têm de aprender geo-política
    Hoffice
    Economia Global & Gestão
    Geo-política nas empresas
    Deixe-se de sofisticações artificiais
    Os truques do Jogo de Cintura brasileiro
    As Pegadas da Língua
    Novo Media Partner Adventus
    Os media de carne e osso
    Irrelevância da Política?
    SKYPE - A nova estrela do hi-tech europeu
    Uma cultura forte é discreta, diz o francês Hervé Laroche
    O Factor China
    Richard Samson fala da «buzzword» que criou: off-peopling
    Oligopólio ao quadrado
    David Vogel - O crítico da «responsabilidade social»
    Vinton Cerf - o «Pai» da Internet explica o que vai fazer no Google
    A Guerre Cognitiva segundo Christian Harbulot
    ESTAMOS DE LUTO
    A Morte do Advogado do Diabo como método de gestão
    Cérebros em Fuga da América
    O Senhor «Megatrends» dá-nos uns murros
    Tendências e Gurus do 1º semestre 2006
    A revolução dos escritórios
    Não roube o CEO ao vizinho
    Sair à rua para inovar
    O guru hoteleiro
    Truques para fintar concorrentes (quatro conselhos soprados ao ouvido por um especialista do BCG)
    Dois novos Blogues da rede Adventus
    A Revolta dos Fornecedores
    O gosto das multidões ("the taste of the crowds")
    PARA ONDE VAI A CHINA
    O Mercado Comum do Ocidente
    Os Truques das multinacionais emergentes
    O mundo à lupa com a Curva J
    A ratoeira do «outsourcing»
    Os que inovam uma só vez – os «one shot»
    O Novo Capital financeiro
    Darwin “raptado” para a gestão
    Carr volta a atacar
    As «buzzwords» mais amadas pelos CEO em 2007
    PREMIÉRE MUNDIAL. O anúncio de um experiência de Clonagem Humana
    A principal exportação americana
    A globalização não é o que se diz
    O render da guarda dos fundadores

    Índice
       arquivo de Gurus
       arquivo de Temas
       50 anos do Management
       cronologia
       momentos históricos
       os 50 gurus + votados
       livros recomendados
    Discurso Directo
       quem somos
       agradecimento
       palavras dos patrocinadores
       prefácios
       guestbook de leitores
       o seu comentário
    Patrocínio Global
    Altitude Software
    Copyright © 2001 GurusOnline.Net - Todos os Direitos Reservados
    Uma produção www.janelanaweb.com
    Ilustrações: Paulo Buchinho
    Digital.PT