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UMA DÍVIDA PESSOAL

Jorge Nascimento Rodrigues


Há 30 anos quando estudei vagamente Economia no Quelhas no então ISCEF, em Lisboa, Peter Drucker não era sequer uma nota de pé de página, que eu me recorde. A Academia ignorou-o durante muito tempo, apesar de ele ter sido um dos primeiros "professores de gestão" (tal qual, assim designados) na Universidade de Nova Iorque nos anos 50... já não falando no "pequeno" acidente histórico de ter sido ele o fundador da doutrina do management.

Por mais escandaloso que seja, a minha descoberta de Drucker foi, por isso, muito tardia - o homem já tinha mais de 75 anos - e, ainda por cima, pouco "correcta". Não comecei pelas "bíblias" enciclopédicas dele, por exemplo, por esse volumoso (500 páginas, mesmo em livro de bolso e com letra miudinha, da Pan Books londrina) A Prática da Gestão, inicialmente publicado em 1954, nem pelo célebre O Conceito de Corporação, inspirado no estudo que ele fizera na GM de Alfred Sloan nos anos 40.

Descobri-o, por puro acaso, ao ler a revista Fortune e fiquei deliciado com a sua visão do "empreendedor", com o papel histórico dessa gente, que ele fora beber a Schumpeter, uma "lenda" da Economia que ele conhecia desde Viena de Áustria, a sua terra natal. Devorei, então, o livro Inovação e Gestão (no original inglês "Inovação e Empreendedorismo") que havia sido traduzido pela Presença naquele ano de 1986. Nunca mais deixei de andar à caça destes "actores" (como começou a ser chique dizer-se) económicos.

Drucker tinha-me pegado o vírus do management, mas pelo lado mais encantador - o da história. E decididamente mudei o meu rumo no jornalismo e na actividade editorial ao ler As Novas Realidades em 1989. Ele tinha inventado um outro "actor" que logo me seduziu - o do trabalhador do conhecimento ("knowledge worker", na linguagem original druckeriana). Drucker começara a falar nele em 1959 e mais desenvolvidamente em 1969 com uma obra magistral A Era da Descontinuidade, de que li extractos com mais de 20 anos de atraso.

Teimei, então, em conhecer o homem ao iniciar a secção de Gestão & Estratégia no Expresso. Durante dois ou três anos troquei faxes com um guru que eu jamais pensara ser tão acessível, modesto e paciente. Nada que se parecesse com as "estrelas" do negócio do entretenimento da gestão. Ele escrevia as respostas às muitas perguntas com que o bombardeei com uma velha máquina de escrever com um caracter miudinho e respondia praticamente na hora (atendendo à diferença de fusos horários com a Califórnia).

Foram os anos em que ele produziu obras tão marcantes para a minha actual "concepção do mundo" (para desenterrar uma expressão antiga) como Gerindo para o Futuro (1992) e A Sociedade Pós-Capitalista (1993), que amavelmente me mandou ainda nos "galleys" (salteados com as inconfundíveis correcções à mão de Drucker), e que seria possível traduzir em Portugal pela Difusão Cultural.

Foi, por essa altura, que o visitei, pela primeira vez, na sua casa em Claremont, perto de Los Angeles. E, paulatinamente, fui aprofundando o Drucker ao vivo, já o "pai" da gestão ia nos 84 anos, permitindo-me tirar uma pequena fotografia de coisas mais "pessoais", que me marcaram tanto ou mais do que os milhares de letras sobre gestão por ele escritas. E que deixo como telegrama final.

. Trabalhar sempre! Ele continua um total "workaholic". "Preciso do stress do trabalho", disse-me. Ele fá-lo com prazer e espera continuar a trabalhar até ao fim, "tal como Verdi", que o impressionara em miúdo na sua terra natal em Viena.

. Caçador de tendências. Entre outras profissões, Drucker havia sido jornalista na Alemanha, em Inglaterra e depois nos Estados Unidos. Mas um jornalista especial. A sua arte sempre fora "caçar" tendências e contar a história ao vivo. "Do que eu realmente falo é de História", disse-me ele no meio de umas garfadas numa lasanha, há dois anos atrás. Drucker é um encantador "grande falador" (como ele próprio se autodesigna com uma enorme risada). A tese dele é que o "futuro está sempre presente", nas tendências que poucos sabem observar e de que só alguns conseguem tirar proveito.

. Turbulência. Para um homem que nasceu em 1909, viu o nazismo emergir quando estava em Frankfurt, e acompanhou os altos e baixos do capitalismo contemporâneo na varanda privilegiada dos Estados Unidos, para onde se mudou em 1937, "o estado normal das coisas nunca foi outro senão o da turbulência - o contrário é que é excepção", riu-se ele de quem não percebe como funcionam os ciclos longos da economia e da história.

. Como queremos ser recordados. Diz Drucker: pelos que nos lêem (diz a costela de escritor) ou nos ouvem (diz a costela de professor) e que nos dizem ou nos mandam um simples bilhete: "Aquilo que disse marcou a minha vida. Muito obrigado".

Por todas estas razões, o leitor compreenderá que a minha dívida pessoal para com Peter Ferdinand Drucker, que em Novembro próximo fará 92 anos, é difícil de medir.

DESAFIO FINAL AO LEITOR

Gostaria de fazer uma pergunta a Drucker? Então envie por email para jnr@mail.telepac.pt, talvez ele responda no próximo 'longo almoço de lazer' (como ele gosta de lhe chamar) que já temos marcado.

 
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